voltar para o início
avançar a página
deixe o seu comentário
POR
QUE
UM
ÔNIBUS?

"Ora, porque não?”, respondem os hackers.
“A melhor explicação sobre porque ter um
ônibus é o fato de se ter um ônibus”,
conclui um deles deitado no fundo do busão,
enquanto cruzava uma fronteira nacional.

Então vamos lá, do começo. O Ônibus Hacker
é consequência do grupo Transparência
Hacker, uma comunidade com mais de 1.500
membros, entre programadores, pesquisadores,
jornalistas, juristas, gestores públicos, magos
conjuradores e toda sorte de diletantes digitais,
articulados ao redor do entendimento de que
existem toneladas de informações públicas

ainda ocultas em escritórios políticos e corporativos
pelo mundo afora.

O trabalho da Transparência Hacker é fazer essas
informações circularem, escancarar relações
de poder e contratos públicos. Muitas vezes
essa contribuição se dá apenas na reorganização da informação já disponível, porém mal organizada
na web. Por exemplo, pegar um pouco desta tabela
de gastos da câmara, cruzar com aquele outro
documento, desaguar tudo num aplicativo de
celular que agora vai acompanhar em tempo real
os gastos dos deputados estaduais. Ao fazê-lo,
abrem caminho para os grupos organizados

que questionam essas dinâmicas de poder e
grana. E se eventualmente alguma lei ou regra
pelo caminho precisar (e puder) ser burlada para
chegar a isso, pior para a lei.

Então desconstrua aquela imagem do hacker
como um nerd genial que se dedica a roubar
centavos de todas as contas correntes do
seu banco digital, ou fraudar cartões de crédito.
Digo, eles ainda são nerds, e geniais. Mas estão
mais interessados no desafio de reconstruir os
fluxos de informação como ação política
afirmativa, buscando caminhos altamente
criativos para dar conta de suas intenções.

Deixemos então essa figura do hacker mesquinho
e vamos nos concentrar nos hackers que
inventam ônibus.

No começo ele era um fusca, o fuscão hacker,
ideia ventilada lá pelo o final de 2010 no
egroups Thacker (que, diga-se, é aberto,
qualquer um pode ler tudo e se inscrever aqui).
A ideia principal é carregar essa bagagem técnico-
política, construída principalmente nas metrópoles,
e ir causar interferência em pequenas cidade.
Chegar em praça ou escola pública e armar gazebos,
almofadas coloridas, circuitos de eletrônica,
balões metereológicos, bancadas, caixas de som

e projetores. Um grande laboratório móvel,
onde todos estão executando experiências em
seus campos de estudo e compartilhando
os resultados com os interessados.

É, a coisa começa a parecer realmente boa
e lá pelo meio de 2011 está fechada a ideia
do busão. Realizam, então, uma campanha
de financiamento colaborativo via crowdfunding.
Pediram R$ 40 mil e receberam R$ 58 mil
dinheiros, à época o maior valor já captado via
esse sistema de financiamento.


Eis que a mágica acontece, o dinheiro é arrecadado
na internet e o ônibus é comprado. Sua primeira
viagem acontece em dez/11 e, de lá para cá, já
foram 24 ações, 14 delas invasões hackers – longas
jornadas com paradas em uma ou mais cidades pelo
caminho. Cerca de 200 pessoas já viajaram com o
ônibus e um total de 90 oficinas diferentes já foram
realizadas, algumas mais de uma vez. O custo total
de manutenção do projeto nestes dois anos foram
ridículos R$ 70k e uns quebrados.

Este trabalho é um perfil do Ônibus Hacker,
entendido como personagem vivo. À direita,
o texto Artefato Ônibus narra a transformação.

do busão de ferramenta de transporte para
item mágico hacker. Mais do que item mágico,
artefato.

Seguindo mais um pouco, abordamos cinco
das oficinas mais interessantes já propostas
pelos hospedeiros do bumba. Desenvolver
este tema é fundamental para a compreensão do
fenômeno ônibus hacker, as oficinas são as ações
realizadas pelo ônibus, as formas de troca que os
tripulantes encontraram para colocar ao mundo
suas capacidades e desejos. Cada viajante é
convidado a realizar o que quiser, aprofundar os
temas que quiser e executar a prática da forma

que mais lhe convir, nem exercício de auto-
organização semi anárquico muito positivo.

Faz mais sentido a explicação inicial de porque se ter um ônibus? Agora, se ainda não está satisfeito, pergunte você a um hacker. Mas uma vez só. Se precisar repetir a pergunta o nó vai ser maior, provavelmente vão te responder: e porque não um barco? Sem falar que eu sempre gostei de foguetes.

ARTE
FATO
ÔNIBUS

Construído em 1989 na linha de montagem
modelo tal, esse veículo alcançou o status
de artefato hacker em 2011, quando encontrou
o coletivo que até hoje topa pagar seu diesel e
permanentemente reconstruir sua estrutura. 2011
também foi o ano onde ele saiu do armário,
estreando cores brilhantes e desenhos livres na
lataria. De lá para cá já se repintou pelo menos
cinco vezes, ao custo de R$ 500 cada roupa nova,
alegremente pagos pelos hospedeiros hackers.

Tendo sido concebido pela indústria como
uma ferramenta de 48 cadeiras, o artefato
ônibus foi transformado e hoje roda com

apenas a metade desse número. As cadeiras
1 e 2 foram transformadas em despensa,
enquanto a 3 e 4, do outro lado do corredor,
abriu espaço para a acomodação do motorista
Naldo Corinthians e sua companheira, Sheila.
O casal atua como dupla e já atravessou
todo o Paraná sem terminar de debater a escalação
de uma partida específica de Brasil x Itália.

Já as cadeiras número 17, 18, 19 e 20 foram
removidas para dar lugar a uma pequena sala
de bate papo, formadas pela 21, 22, 23 e 24
de um lado e as 13, 14, 15 e 16 do outro. Essas
quatro últimas foram desparafusadas do assoalho

e invertidas, posicionadas de costas para a frente
do bus e de frente para a sala de bate papo.
Consegue visualizar essa geometria? É o salão
comunitário viking do artefato.

É importante visualizar, porque a mesma
inversão aconteceu com as poltronas 25, 26,
27 e 28. Mas, enquanto no espaço anterior
apenas uma linha de poltronas foi removida, aqui,
no fundo do busão, quatro linhas de poltronas se
foram, da 29 à 44. Elas deram espaço a uma área
livre para sempre de sapatos, uma sala-quarto
com almofadas coloridas e tatames, área comum
onde acontece a maior parte da ação. Também

sedia a internacional e acolhedora oficina
permanente de conchinha.

O motor é velho e queima óleo numa fumaça
dos diabos. As paredes estão levemente
estufadas e descascando. As janelas não
trancam tanto assim, mas não espalha. Fechar a
porta da frente por fora demanda uma oficina
relâmpago de força de vontade com chave.

Seu assoalho foi adaptado (furado) para
passar os fios que alimentam as seis
tomadas fixas no piso de madeira, abaixo
dos bancos 13, 15, 25, 27, 45 e 47. A bateria

original foi instalada em série com outra tão
grande quanto ela,compartilhando a energia que
um inversor transforma de 12v para 110v, os volts
necessários para rodar os computadores, máquinas
de fumaça, impressoras 3d e canhões de luz que
seguem funcionando à bordo. Todos fazem rodízio
nessas tomadas.

A capacidade não é tão grande e se elas caírem
não está descartada a possibilidade
de todos empurrarem até dar a partida.
Essas baterias se mantém carregadas por uma
vigilância constante baseada em feeling
eletroquímico e a ativação eventual de uma

capacidade estúpida de resolver perrengues.

Sua expectativa de vida se transformou numa
incógnita junto com sua elevação à condição
de artefato. É possível que seus hospedeiros
o sigam reformando para sempre ou até as estrelas
apagarem. É possível que ele se transmorfe no
Barco Hacker e navegue até águas internacionais
para lá viver e morrer em paz. É possível que
agora, rodando, sentindo o vento no rosto, ele se
sinta mais vivo do que em qualquer outro
momento de sua vida.

OFICINAS

Que jogos de tabuleiro você conhece? Vamos lá: Banco Imobiliário, Jogo da Vida, War, Detetive. Mais algum? Talvez Scotland Yard, o fantástico Cara a Cara? Bom, toda essa geração é do começo do século passado e de lá para cá muito neurônio já foi queimado na construção de novos jogos. Eis que, em 2010, Guilherme Guimbão Cianfarani, brasileiro, trinta e poucos anos, já trabalhou com x e com y, largou um cargo estável em respeitada autarquia do Estado brasileiro para desenvolver linguagem. E ele se expressa (também) por meio de jogos. Nasceu aí a Quequeré, empresa que já desenvolveu seis jogos e hoje tem mais dois sócios: Gus Morais, ilustrador e poeta, e Capi Etheriel, poeta diletante do digital.

Em 2011 Guimbão entrou para o Ônibus Hacker e seguiu desenvolvendo sua expressão por lá, adaptando a produção a cada viagem. Em Foz do Iguaçu, onde o busão estava para o Latinoware, ele resgatou o Jogo da Fronteira, que foi proibido de circular no Brasil por propor uma dinâmica de contrabando de muamba e suborno. Para ser comercializado, foi reformulado e vendido no país como Robin Hood, trocando ‘oficial da alfândega’ por ‘xerife de Nottingham’ e coisas assim, mas mantendo a mesma estrutura por trás.

Essa oficina foi executada durante quatro dias: no primeiro dia foi apresentação e conversas, desenvolvendo a ideia com a molecada; no segundo, mãos a obra: 50 reais para o grupo cruzar a fronteira e comprar ilegalmente o material que seria usado na confecção do jogo; terceiro dia para a montagem do tabuleiro e das peças; para, só no quarto dia, jogar.

“Foi muito bem aceito, até os seguranças do Latinoware queriam jogar. Esse jogo fez sentido naquele contexto, em outras viagens seria impossível. Em Minas, no Abril Poético, foi bem bacana, acho que a viagem mais intensa que eu participei. Numa cidadezinha de 10 mil habitantes a gente trabalhou com uma molecada que a Quequeré nunca tinha trabalhado, oito a doze anos. Tinha uns copos descartáveis para o suco ali e na hora me serviu uma ideia de usar esses copos para fazer a oficina, era um ping pong adaptado com as regras construídas coletivamente. Eu fui dando ferramentas e a criançada foi criando junto. Depois de cada rodada que todo mundo brincava a gente abria para rediscutir as regras, repensar a mecânica. Como só ia trabalhar ali uma tarde, deveria ser algo que funcionasse numa tacada só. Essa é a coisa viva do ônibus, o se vira nos trinta, precisa de criatividade e disposição para fazer rolar ali na hora”.

Além destas experiências mais mandrakes, a Quequeré já desenvolveu cinco jogos maduros, todos com pegada crítica e questionamento político. Alguns com humor também. São eles:

Brasil, um país de tolos: é uma disputa entre personagens de nossa história e suas frases tolas.

Brasil, um país de poucos: você começa controlando um partido político e cresce sua rede adquirindo empresas, órgãos do Estado, meios de comunicação, etc, etc.

A conta da Copa é nossa: Cada jogador é uma empreiteira, ganha quem lucrar mais construindo obras da Copa.

Só doi quando eu penso: Jogo cooperativo onde cinco jogadores (intelectual, artista, guerrilheiro, estudante e trabalhador) juntos tentam fazer frente ao regime militar, que é o tabuleiro. É impossível ganhar este jogo, os jogadores fazem um trabalho melhor ou pior esclarecendo a população, mas é impossível derrubar o regime antes de 1984.

Datahacker: quipes de ativistas por dados abertos compartilham recursos para cumprir um objetivo comum: liberar informação pública. Mas o desenvolvimento precisa se sustentar e a cada rodada as equipes precisam dividir seus esforços entre o trabalho do mercado e o ativismo independente. ?
A qualquer momento o Ônibus Hacker terá um número aleatório - de zero a 25 (incluindo cópias) - destes jogos em seu compartimento de cargas. Então, se encontrar o artefato busão pelo caminho e estiver a fim de uma partida, puxe uma cadeira e abra um tabuleiro.

Depois de uns cinco milênios de realização de mapas pelas elites do mundo, eis que um belo dia me inventam a internet e uns vinte anos depois desse dia começa a ser possível realizar mapas por uma nova perspectiva, quase de graça, de baixo pra cima, por resistência e poesia. Governos e corporações vão continuar utilizando a linguagem cartográfica para afirmar seus mundos, claro, recursos, populações e poder político espalhados por aí precisam ser divididos, cê tá doido. Mas quando em busão hacker, podemos fazer diferente.

Nessas ganas de reconstruir os mundos que tem por aí e a forma como nós enxergamos ele, a linguagem cartográfica já foi usada em várias oficinas no Ônibus. Identificamos três manifestações dessa vontade:

OpenStreetMaps e o mapeamento livre

OpenStreetMaps (OSM) pode ser entendido como uma Wikipedia cartográfica, um mapa que qualquer um pode ajudar a desenhar, contribuir, corrigir, atualizar, alterar ruas, apontar a derrubada daquele bosque ou a construção daquele prédio, construindo uma base cartográfica colaborativa, aberta, que pode ser usada gratuita e livremente por qualquer interessado.

Se o Gcarro não passou na sua rua, ninguém vai conseguir te achar? Não, a gente não precisa ser refém do Google. E além disso, não é incomum o Google firmar acordos políticos por trás dos panos e comprometer o resultado final de seus conteúdos. Inclusive, vamos falar do Rio de Janeiro, há alguns meses o governo deste estado pediu ao Google que retirasse várias ruas de favelas de seus mapas. Com o argumento da segurança e da proteção ambiental, o governo e o Google habilmente eliminaram da existência digital muitas ruas e comunidades. Duvida? Dá uma olhada aqui: http://dev.cardume.art.br/mapasdevista/comunidade/narrativasdoalemao

Navegue um pouco ali em cima, no canto direito superior. Vá em GoogleMaps, Satélite, Marcadores e veja as como as ruas oficialmente presentes na ferramenta são muito diferentes das ruas existentes. Depois, clique em mapa e veja como fica claro a invisibilidade de muitas e muitas moradias.

Agora, clique em OpenStreetMaps. Não é perfeito. Mas é bem melhor. E não tem uma mega corporação lucrativa por trás, foi tudo feito na unha, por indivíduos ativistas. Este mapa é do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e é significativo por que lá aconteceu uma das oficinas de OSM do busão. Boa parte das ruas por ali foram mapeadas por uma oficina proposta pelos hackers durante a Rio + 20, em 2012.

“O mapa do Google não é uma base neutra, tem interesses mercadológicos e políticos por trás. Não que um mapa colaborativo vai ser neutro também, mas é mais difícil uma visão única se sobressair, todos podem editar. Existe uma moderação para barrar spam, vandalismo e outros desmandos. E no limite, se você discordar de tudo, o mapa é livre e você pode copiar tudo para começar a sua versão”, avalia Fabricio Zuardi, um dos oficineiros que mais realizou esse trabalho com o busão.

Essa oficina já aconteceu em Brasília, duas vezes em Ribeirão Preto, Cidade de Deus e Complexo do Alemão, no Rio, e também no Paraguai.

O mapa do Alemão que segue no link também é oportuno para esse texto porque nos leva à próxima forma de mapeamento:

Cartografia afetiva

Certo, mapear, mas o que? O que é tão importante para você que merece estar no mapa? O que você vê, o buraco na rua, a flor crescendo no buraco ou o cano de esgoto estourado que adubou aquela terra, fez crescer a flor e cavou o buraco? É tudo uma questão de ponto de vista. O que te afeta nesta paisagem?

A oficina de cartografia afetiva se constrói como uma ferramenta de expressão, como uma provocação aos participantes para que agucem o olhar ao seu redor e expressem o que está ali e lhes é profundo. Sabe essas pequenas relações invisíveis, sabe o lugar onde você terminou aquele namoro e sempre que você passa na frente te dá gosto de terra na boca? Lembra daquela sorveteria onde um dia seu pai disse que você poderia comer quantos sorvetes de leite condensado você aguentar e por isso aquele foi o melhor dia da sua vida até os sete anos? Não lembra, né? Claro que não, foi o meu pai que me falou isso, esse afeto é meu, cabe a você explorar e expressar os seus.

Tudo isso entendendo que essas pequenas relações invisíveis dão sentido às nossas vidas. Dão estofo, densidade para nossa formação. E que normalmente elas ficam para sempre lá, guardadas no fundo de cada um, invisíveis para todos os outros. Imagine a quantidade de afetos invisíveis que estão por aí e passam zunindo por nossas cabeças todos os dias quando andamos na rua. É perigoso, podemos ser acertados por afetos errantes e sofrer efeitos incertos.

Buscar explorar isso, treinar o olhar para encontrar e compartilhar estes afetos invisíveis é uma forma de cultivar o ponto de vista humano. Se cada um de nós vê o mundo de um jeito, não podemos submeter ao ímpeto uniformizador dos governos e corporações. Não, meu mapa não é desse jeito, é de outro e tem valor porque é único. Então vamos na contra mão das escolas tradicionais, que jamais perguntaram ‘o que você pensa a respeito’ ou ‘vamos lá, você tem uma visão de mundo, qualé? Conta pra gente o que você está vendo aqui’. Essa é a proposta da cartografia afetiva.

Junto ao Ônibus Hacker essa oficina aconteceu três vezes: Complexo do Alemão, Centro Cultural São Paulo e Uruguai, todas elas realizadas por Breno Castro Alves, editor do Espaço Húmus, membro do Ônibus Hacker e autor deste texto. Necessário esclarecer essas relações invisíveis para mó de maior clareza na narrativa, certo?

Agora, sobre a terceira forma de mapeamento, que é o

Mapeamento aéreo com balão

Bom, para ouvir essa história você vai precisar perguntar ao Pedro Markun o que aconteceu com o balão e com as fotos. A Priscilla Cavalieri também pode dar um relato um pouco mais shakespeariano da ação;

A oficina de lei é um exercício de construção de lei, uma vivência para despertar a percepção de que as leis são mutáveis, interferíveis, criadas pelo homem e por isso sujeitas à nossa permanente revisão. Abre-se, assim, um vislumbre da possibilidade de transformar o rígido mundo do legislativo, motivo pelo qual essa oficina é imensamente mais bem sucedida com crianças do que com adultos. Para os mais velhos a vida já é assim mesmo e isso ai, amigo, nunca vai mudar, melhor deixar como está mesmo e seguir a vida. Crianças não funcionam assim. Se perceberem que realmente podem interferir no sistema legal, nunca mais esquecerão essa possibilidade.

A magia da oficina de leis está no fato de que ela é uma oficina de verdade. Existe um dispositivo legal chamado Lei de Iniciativa Popular que pode tornar realidade uma lei proposta por cidadãos. Contanto que uma porcentagem de eleitores declare apoio à nova proposta de lei, ela deverá ser debatida pelo legislativo. Essa porcentagem gira em torno de 5%, o que é completamente viável de se alcançar em municípios de pequeno porte.

O caminho da oficina é divido em três etapas: no primeiro momento discute o que é um projeto de lei, da onde eles vem, como eles funcionam, para entender um pouco melhor a dinâmica e no final propor um projeto. No segundo momento se afina os ponteiros, a ideia decanta, a euforia inicial passa e há mais tranquilidade para aparar as arestas na produção de um documento sério, oficial, lei. Com ele pronto, hora de ir para a rua colher assinaturas e fazer campanha. O terceiro momento é protocolar isso na câmara, o simbólico da entrega e o acompanhar da burocracia atuando para debater a proposta.

Numa oficina de lei em Ribeirão Preto surgiu a história do bullying, assunto muito mais conectado com a vida da molecada do que com as leis do município. A história foi a seguinte: tinha uma menina no grupo que tava com o bullying muito entalado e ela bulinou todo mundo pra escolher esse tema, a galera foi junto. A ideia da oficina de lei é extrair alternativas, soluções para o problema. Então não adianta ter “Artigo 1: é proibido bulliyng”. Não, se começarmos desconstruindo a lei a molecada já sacm que só proibir não é o suficiente. Então criaram um feriado para discutir isso, um feriado que tivesse que acontecer numa quarta feira, pra ter mais chance de emendar, e todo mundo tinha que parar.

Mas não adianta só parar. O que vamos fazer? Dai chegamos nas escolas e no artigo segundo, onde todas as escolas municipais tem que ter uma programação para discutir o bullying. Muito legal que ao mesmo tempo em que ali estava a farra do feriado, também estava aproposta de vir pra escola e trabalhar.

E o terceiro artigo, que a mesma menina que tinha provocado a discussão trouxe, é que os pais é que tinham que conversar com os filhos. Isso até hoje arrepia Pedro Markun, formulador da proposta de oficina. Esse aprofundar em como responder os problemas, como lidar com eles, como botar uma sociedade para discutir o problema, como botar pais para conversar com filhos sobre isso, como construir soluções coletivas para problemas comuns. É, concordamos, Pedro. Arrepia mesmo.

Alguma vez você:
_baixou uma música, filme ou série?
_ fez fotocópia de um livro?
_ comprou um cd e copiou para seu computador ou para um pen drive?
_ fez uma festa para mais de 100 pessoas e não pagou o ECAD, órgão que cobra os direitos autorais no Brasil?
_ fez um vídeo com mais trinta segundos de uma música copyright?

Se alguma resposta for sim parabéns!, você é um pirata. Ilegal. Um criminoso em dívida com a lei. Pode comprar seu tapa olho, um papagaio empalhado e muitos litros de rum, seu bucaneiro sujo.

É com esse tapa na cara que começa a oficina de cultura livre, processo que primeiro deixa bem claro o alcance das restrições do modelo atual de propriedade intelectual para depois demonstrar como essa estrutura não faz o menor sentido sob uma ética hacker que defende liberdade irrestrita para a circulação de informações e emancipação individual por meio do conhecimento.

Mais do que não fazer sentido, as duas visões são completamente antagônicas. Vamos diferenciá-las:

- Na cultura proprietária as criações intelectuais são produtos industriais a serem vendidos, objetos de consumo que buscam alcançar a maior escala possível em seu comércio, gerando assim lucro para toda a cadeia envolvida em sua produção. Os autores, entendidos como os gênios por trás da criação e portanto proprietários da obra, ficam com uma fração do valor, enquanto a indústria envolvida com sua produção lucra o restante.

- Já na cultura livre, cada produto cultural é entendido como reflexo e consequência de uma bagagem comum, compartilhada por todos. Cada criação deve ser livre para influenciar o mundo, deve ter o potencial de estar onde for necessária, sem a necessidade de uma transação financeira. Digo, até os Beatles e Beethoven aprenderam com outros músicos a fazer sua arte, absorvendo e reproduzindo subjetividades e objetividades de uma forma que hoje seria ilegal. A diferença é que naquela época era mais fácil esconder as referências.

A internet tem um papel central nessa história. Até sua criação, era necessário uma cadeia muito longa de trabalho para produzir e distribuir os objetos que carregam as obras culturais: discos, livros, etc. Hoje, porém, amigo, o custo é zero. Ctrl + c, ctrl + v. Você sabe como é, já fez isso antes. Bom, zero não, o custo é a eletricidade consumida por sua máquina enquanto realizava a operação. Oh, sim, muito longe de zero. Um zero vírgula muitos outros zeros de dinheiro.

Como, então, justificar toda uma indústria construída sob a lógica do comércio na distribuição? Ora, com leis. Cada vez mais duras. Afinal, não vamos mudar esses maravilhosos métodos de enriquecimento (diz a indústria do entretenimento), construídos durante anos sobre muito suor da elite, só porque agora surgiram alguns nerds intrometidos com suas máquinas maravilhosas. Dizem. Ou pensam, sem dizer em público.

Acontece que são muito mais do que alguns adolescentes trocando foto de mulher pelada. Estamos falando da possibilidade efetiva de tornar livre todo ou quase todo o conhecimento já produzido pelo gênero humano. Pense bem, não faz muito tempo, até os anos 90, tudo que um guri com potencial poderia encontrar era o que tocasse na rádio ou vendesse na loja de discos da sua cidade. Lá pelos anos 70, só com muita sorte para ter um amigo que viajasse ao exterior de vez em quando e trouxesse de lá aquele vinil fantástico que mudaria sua vida. Antes disso então, virge maria, só cultura local.

Daí numa manhã inspirada os deuses me inventam a internet e hoje você pode encontrar sei lá, 90%?, de tudo que já foi produzido. Imagina o que isso representa em termos de libertação e formação individual, imagina o que isso representa para um moleque pré adolescente trancado no quarto com um violão na mão e um remixador digital na cabeça. Imagine o potencial de crescimento dessa mistura na geleia real de criação que existe dentro desses meninos e meninas trancados pelos quartos mundo a fora.

Ora, é claro que vale derrubar três ou quatro indústrias arcaicas em troca dessa potencialidade.

A primeira viagem do busão aconteceu no final de 2011 e foi ao Festival da Cultura Digital, que aconteceu no Rio de Janeiro. O Festival reuniu centenas de iniciativas, indivíduos e grupos atuantes ao redor de mais ou menos os mesmos temas desenvolvidos neste especial. Foi lá, inclusive, que os tripulantes do ônibus conheceram os ativistas do Palabra Radio, amigos colombianos que estavam apresentando uma traquitana à venda: um transmissor FM livre.

Quando você legaliza uma rádio, seu transmissor é lacrado pela Anatel, que segue fazendo visitas técnicas periódicas para checar o lacre. Isso garante que a 94.1 FM só vai transmitir nessa mesma frequência. A rigidez do espectro de rádio é fruto de uma disputa já vencida pelas rádios comerciais. Acontece que o transmissor dos hermanos é ilegal justamente porque tem a frequencia alterável, você pode encontrar um espaço vazio ou até mesmo disputar num território pequeno com as rádios comerciais. Olhinhos brilharam por toda a nação hackernômade e o transmissor foi comprado: R$ 400.

O custo final da rádio, com alcance de 5km, é de cerca de R$ 800. Quatrocentos do transmissor, um mixer de 4 canais, para botar musica e voz ao mesmo tempo, saiu por R$ 200; mais dois microfones de R$ 40 reais; antena feita de bambu cedido por um morador de rua de porto alegre que, acoplada a um cano de instalação elétrica que custou dez contos. Temos 24 reais de conectores elétricos; mais uns 100 reais de cabo elétrico e um pouco de arame. Você também precisa de ferro de solda e um pouco de cola quente.

O projeto é simplíssimo e compartilhá-lo está na raiz do que faz o Ônibus Hacker. Garantir acesso e controle sobre a infra estrutura é proposto por ali como garantia de autonomia, garantia de que qualquer interessado poderá reproduzir aquelas experiências, reaplicando os conhecimentos em seu contexto. E isso se aplica na área técnica, que é montar a infra-estrutura, e também na comunicação, que é a operação do rádio. Falar o que, para quem, de que forma? A discussão sobre a voz pública e a construção da programação a ser transmitida entram no mesmo exercício de rádio. A oficina de Rádio Livre puxa mais para a técnica ou mais para a comunicação de acordo com o perfil dos hackers interessados em conduzi-la.

Novamente, aí está, liberdade enorme. É um exemplo bastante concreto do processo de autonomia que o ônibus propõe. Sem falar da estética da antena de bambu presa com arame, tudo meio tosco, conversa muito bem com o ônibus velho grafitado.

Em Conselheiro Lafaiete, um dia os alunos chegaram à sua escola e se viram com uma aula a mais por dia, o sexto horário. Ficaram putos e odiavam as matérias que haviam sido colocadas, estavam com aquilo entalado quando o ônibus chegou propondo a oficina de rádio livre, foram lá então trabalhar esse tema no ar. Encontraram a responsabilidade de entrevistar a direção, falaram com o vice diretor que foi bem seco, polido, ficou cinco segundos na entrevista, levantou e foi embora.

Depois foram atrás do coordenador pedagógico questionando a implementação das matérias, inclusive com as professoras de meio ambiente e educomunicação (que, segundo a leitura de um aluno, era aula de aprender a falar difícil) presentes, e ele reconheceu que por ter sido um processo atropelado a gente acabou atropelando vocês também, mas foi um erro. Foi um momento forte, ver um coordenador de curso assumindo para uma molecada de doze anos que eles erraram na grade curricular.

E não é que a audiência era enorme e seu papel de veículo de comunicação social estava sendo cumprido. A potência da rádio não está fundamentalmente no seu alcance, mas na efetividade de transmissão da voz, nessa bruxaria que faz tudo o que você falar nesse microfone aqui potencialmente vai ser escutado por todo mundo ao seu redor. Na democratização do acesso à voz pública. Por isso é mais interessante encontrar uma faixa vazia do espectro do que ir contra a principal rádio da sua cidade para ficar brigando por um som chiado. Há quem pire em derrubar o Silvio Santos por cinco segundos, mas não precisa. Temos muito espaço livre no espectro e muita possibilidade técnica de ampliar o aproveitamento desse espaço, rádio digital que o diga (mas não nessa oficina - ainda).

Uma evolução possível para essa história é um projeto de construir coletivamente o transmissor para deixar nas cidades. Muito mais legal do que chegar e dar um aparelho caro, assim os participantes poderiam ter uma relação de apropriação desde o começo, desde a infra estrutura. Resolveria vários problemas do tipo, fica com quem? E quem conserta? Fica com quem estiver fazendo. "Não é bom que com certa facilidade podemos hackear a estrutura tradicional das AMs e FMs, a serviço de poucas empresas e grupos políticos? Nós, hackers, acreditamos que sim. E ainda vamos inventar o dinheiro para deixar os transmissores por onde passarmos", conclui Livia Ascava, membra atuante do busão.

MURAL
HACKER